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sábado, 9 de abril de 2011

O Coração Do Violinista

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Por: F. Sabino






DE REPENTE, meu amigo tentou liquidar a discussão, dizendo que bateria não é instrumento de música.
- Como não é instrumento de música? É instrumento de quê, então?
- De jazz .
- E jazz  não é música?
- Música para você: para mim não é.
- Toda orquestra sinfônica tem bateria.
- Nem por isso ela fica sendo instrumento de múscia.
- Por que não?
- Toda orquestra sinfônica tem maestro. Maestro é instrumento de música?
- Em certo sentido, é.
- Ora, você está é bêbado.
 Discutíamos por discutir, levados pela necessidade de manter aceso o interesse da conversa, enquanto tomávamos a nossa cerveja. Meu amigo voltou à carga:
 - Você não entende de instrumento de música. Se entende, me diga uma coisa: bateria é instrumento de percussão, não é isso mesmo?
- Tenho a impressão que sim.
- Tem a impressão, não: é instrumento de percussão. Agora me diga uma coisa: o piano. O piano é instrumento de corda ou de percussão?
 Embatuquei. Sempre tivera o piano na conta de instrumento de corda, ora essa era muito boa. Mas o diabo daqueles martelinhos lá dentro, percutindo nas cordas... Percussão? 
 - De corda - arrisquei.
 - Não senhor: de percussão - arrematou ele, triunfante, e chamou o garçom com um gesto, pedindo outra cerveja.
 Veio-me a certeza de que se eu tivesse falado " de percussão ", ele diria: " não senhor: de corda ". Agarrei-me à corda:
 - Percussão onde, senhor! De corda.
 - Percussão.
 - Corda.
 Dali partiríamos para os sopapos, se de súbito não tivesse entrado no bar o violinista triste. Vinha de um programa de televisão, onde mal aparecia, na terceira fila de uma orquestra. Mas não era por isso que ultimamente vivia triste: andava apaixonado, sabia- se , e não tivera ainda nem coragem de se declarar à sua amada, " uma mulher pra muito luxo ", dizia ele. Foi sentar- se a um canto, como sempre, pediu um conhaque. Imediatamente o convocamos para a nossa mesa, e veio, olhos de vaca mansa, trazendo seu cálice. Para ele tanto fazia sentar- se nesta como naquela, ora dane- se! estava apaixonado.
 - Você que é músico de verdade, vai dizer aqui uma última palavra: bateria é ou não é instrumento de música?
 - Piano é instrumento de percussão ou de corda?
 Mas o violinista triste não queria saber de nada, muito menos de conversa fiada de botequim. Lagou- nos um olhar desconsolado, soltou um suspiro que era um mugido tristíssimo, ergueu- se, levando o cálice ao peito:
 - E o coração... É instrumento de sopro ou de percussão?


quarta-feira, 6 de abril de 2011

O homem nu


Por: F. Sabino






 Ao acordar, disse para a mulher:
 - Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
 - Explique isso ao home - ponderou a mulher.
 - Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar - amanhã eu pago.
 Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer o café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
 Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos.
 - Maria! Abre aí, Maria. Sou eu - chamou, em voz baixa.
 Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
 Enquanto isso ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponterio subir lentamente os andares... Desta vez,  era o homem da televisão!
 Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
 - Maria, por favor! Sou eu!
 Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um  ballet grotesco e mal- ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enchugando o suor da testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
 - Ah, isso é que não! - fez o homem nu, sobressaltado.
 E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
 - Isso é que não - repetiu, furioso.
 Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a aparar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois esperimentou apertar o botão de seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: " Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistiu em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
 - Maria! Abre esta porta! -  gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma caltela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
 - Bom dia, minha senhora -  disse ele, confuso. - Imagine que eu...
 A velha estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um gito:
 - Valha-me Deus! O padeiro está nu!
 E correu ao telefone apara chamar a raiopatrulha:
 - Tem um homem pelado aqui na porta!
 Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
 - É um tarado!
 - Olha, que horror!
 - Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
 Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se preciptadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, vateram na porta.
 - Deve ser  a polícia - disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
 Não era: era o cobrador da televisão.
 

quinta-feira, 24 de março de 2011





De dentro da casa iluminada, os sons do piano. E ali fora, no terraço deserto, os dois muito juntos se deixariam ficar olhando a noite. Conversariam? Claro que sim, mas só nos primeiros momentos. Logo atingiriam aquele estado em que as palavras são demais. Quietos e tensos, mas calados na sombra. Por quanto tempo? Impossível dizer, mas o certo é que ficariam sozinhos uma boa parte da festa, apoiados no grandil dentro da noite escura. Só os dois, lado a lado, em silêncio. O braço dele roçando o braço dela. O piano.

( Lygia F. Telles)

terça-feira, 8 de março de 2011

Escritório

Assumi compromisso com o contrato registrado e sacramentado, de cumprir fielmente o regulamento do prédio, na minha nova condição de inquilino. Não posso por exemplo, ter explosivos no imóvel, objeto de perfeita locação. O que significa que os terrorristas desta praças não devem mais contar comigo.

( F. Sabino )

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ler é cultura!

A mulher do vizinho

Nunca duvide: prestígio por prestígio, a do vizinho é sempre melhor.

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- Introduction

                                                              Vou dizer uma coisa: Fernando Sabino é incrível! É o primeiro livro que leio de sua autoria, e já não vejo a hora de acabar e começar outro, e outro, e outro, rs. Seus contos, crônicas e tons de ironia me deixou presa neste livro. Alguns relatos sobre a vida moderna mecheram comigo e do que li vou tirar um grande proveito. Não deixo a desejar um caderninho de anotações para que possa guardar frases que chamaram minha atenção, ou algum tipo de conto que mecheu com a imaginação. ***  Aliás não consigo ler sem anotar algo para depois usar como exemplo mais tarde.***
                                       A melhor parte é que suas histórias não são cansativas e até quem não gosta (ou não tem tempo de ler) faz excessão a esse gênio da literatura.
                                                     
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Uma breve lembrança de sua história 





              Durante a adolescência, foi locutor de programa de rádio Pila no Ar e começou a colaborar regularmente com artigos, crônicas e contos em revistas da cidade, conquistando prêmios em concursos.
              No início da década de 1940, começou a cursar a Faculdade de Direito e ingressou no jornalismo como redator da Folha de Minas. 
              Seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, foi publicado em 1941, no Rio de Janeiro quando o autor tinha apenas dezoito anos, sendo que alguns contos do livro foram escritos quando Fernando Sabino tinha apenas quatorze anos.
              Tornou-se colaborador regular do jornal Correio da Manhã, onde conheceu Vinícius de Moraes, de quem se tornou amigo.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1944. Depois de se formar em Direito na Faculdade Federal do Rio de Janeiro em 1946, viajou com Vinicius de Moraes aos EUA, onde morou por dois anos em Nova Iorque com sua primeira esposa Helena Sabino e a primogenita Eliana Sabino.
             O encontro marcado, uma de suas obras mais conhecidas, foi lançada em 1956, ganhando edições até no exterior, além de ser adaptada para o teatro. Sabino decidiu, então viver exclusivamente como escritor e jornalista. Iniciou uma produção diária de crônicas para o Jornal do Brasil, escrevendo mensalmente também para a revista Senhor.
           ***Infelizmente ***Faleceu em Outubro de 2004, vítima de uma doença no fígado. Às vésperas de seu 81º aniversário. Em sua lápide foi escrito a seguinte frase: "Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!" 
      
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